Terça-feira, Setembro 4th, 2007


 

Neste tempo em que as marés se movem agressivas e vivamente incertas, haverá lugar mais fascinante do que uma praia deserta num fim de tarde? Creio que não. Naquele inexacto fim de tarde dourado pelo laranja que se impunha insolente, fim de férias, Verão mal amado ainda ao rubro, mas já com traços de Outono incipiente e indeciso, paira um odor seco e acalorado por uma controversa humidade que se sente desejadamente nova. Apetece-lhe que a brisa quase noctura polvilhada pelos salpicos das ondas a levem, mas é tão bom senti-la a colar-se a nós, como tatuagens de desejo.
A caminho da praia, observara tons novos no horizonte do seu olhar. Uma mistura de amarelos-Sol com os alaranjados ofuscados das folhas salpicadas de pinturas outonais. As ondas vivaças parecem-lhe velhas e cansadas. Em permanente comunhão com a areia, mas desejosas de se renovarem, estão em sintonia com a tarde que se esgota. O mar doura-se entre um azul e um verde que teimam em se transformar.
Abre o caderno de notas descontínuas e dispersas mas não consegue escrever. Os olhos, também eles outonais, regressam à linha do horizonte salpicado de aves mudas ao fundo, centrados no risco incerto, indefinido e infinito que divide o céu e o mar. Os mesmos olhos, únicos, regressam ao areal sem vida, ao horizonte estanque, imóvel. Sente-se dono do espaço e do tempo que o circunda, sobretudo de si próprio, pontualmente liberto de sons, cores e cheiros urbanos, de movimentos rápidos e de gentes várias. Até dela, por fim, de vez.
Inspira o ar profundamente húmido e salgado com cheiro a maresia, sabor a sal, lavando a alma. Inspira e expira, libertando-se de expressões, de experiências, de vivências e de sensações perdidas num tempo que já foi e tantas vezes achadas em memórias quase-amargas. Retoma o pensamento: é dono de si próprio e está liberto dela. Por fim. De vez. Sente-se livre. Já tinha chorado muito. Tanto. Por ela. Tudo à sua volta ganhara o gosto que se confundia tantas vezes ácido, amargo e salgado das lágrimas.
Agora, na praia deserta e limpa, não chora nem ri. Sorri. Liberta sorrisos carregados de imagens dos seus chuviscos trovejados, imparáveis, torrenciais, inextinguíveis, infinitamente eternos…
Despe a t-shirt branca amarrotada, estende-se na areia morna esculturada dos movimentos que o vento ainda não levou, sente a chegada da noite, saboreia o ar salgado, fecha os olhos cansados, deixa-se invadir pelo som das ondas, pela sonolência profunda, pela sua recém-encontrada e perfeita liberdade.
Acorda tão repentinamente como adormeceu, imóvel; o rosto cola, o corpo dormente palpita. O sol já foi e a praia continua santificadamente vazia. Senta-se, sacode-se, espreguiça-se; observa. Inspira o ar quente do anoitecer. O vento decidiu não o incomodar. E então, vê-a. Lê um livro e toma notas. Não é um livro. É o seu até então secreto caderno de notas. A desconhecida não resistira a pegar nele, a folheá-lo e a escrever.
Levanta-se num movimento sacudido e vivo, esboça um sorriso de felicidade – Ele. Estende-lhe a mão áspera e tremente. Ela entrega-lhe o caderno. Ele sorri e decide caminhar pela beira-mar, sem olhar para trás. Invadem-no pensamentos soltos.
Amanhã sorrirão os dois. Num amanhã sem data marcada. E virão juntos à praia. E acordarão num começo de manhã. Amanhã, serão um do outro.
Mas hoje decide ir ter com os amigos e festejar a noite toda. É Sexta-feira, estamos em Setembro. O Verão ainda está ao rubro…

BLAUHAI*

 

Neste Verão, tão calorosamente infernal e pegajosamente crepuscular, que só agora teima em dar a real cara, os romances mal vividos diluem-se como semi-frios de framboesa esquecidos entre conversas e novidades relatadas entre amigos ou em família nas animadas tardes de Domingo.
Nos corações plenos de paixões, os extremos da nossa humana representação amorosa tocam-se: os cautelosos amor e o ódio circulam pela direita, de mãos dadas, quase-inseparáveis, não fossem eles sustentados pelo desejo. O amor quer continuidade; o ódio não deixa. É o querer muito e a indecisão que habita o não querer. A culpa é do Setembro, que se lembrou de aparecer qual Primavera revolucionária. O mês tenta a custo dar ares de estação incipiente e doce. Começa um ciclo que não terminou, porque não se completou ainda, por si mesmo. Nunca se completa totalmente. Funde-se com o que há-de vir…
Ao amor e ao ódio, o desejo não os abandona; não. O Agosto acaba, mas o Verão e o desejo não. O desejo está no centro do duelo entre o love e o hate. Por esses espaços mundanos, os corações e as mentes conversadoras perguntam-se: o desejo, um privilégio? Diz-se que sim e diz-se que não. Conclui-se que não, não é. Seria, se não tivesse tantas irregularidades como adversárias: a distância, o tempo, as mudanças…
Amor e ódio convergem no apreço pela coerência. O amor aprecia a coerência entre as palavras ditas e os actos sentidos; o ódio cultiva a coerência do raciocínio lógico. O amor vive da emoção e o ódio da razão. Como a indecisão paira, o coração contenta-se com o “é possível porque sim” e o “não é possível porque não“. Pouco haverá a fazer.
E no final, não há ódio nem amor. Há e haverá desejo…

BLAUHAI*