Estórias


Ó Dona salada,
o que é hoje o jantar?

Tomate de carvão,
Cebola de cordel,
Alface de borracha,
Pimento de papel,
Pepino de sabão,
Vinagre de acetato,
Pimenta no palato,
Azeite de tinta azul,
E sal do Mar do Sul!


BLAUHAI*

Porque me pediram. Mas só por isso.

Depois da sua ausência demorada,
Decidi fugir.
Não conseguia viver mais na cidade
Onde o conhecera.
Não me imaginava a passar
Pelas ruas onde passeara com ele.
Fui à estação e pedi um bilhete só de ida,
Para qualquer parte.
Cheguei lá de madrugada;
A um sítio sem nome.
Tudo era pardacento naquela pequena vila.
Vila fosca,
Pestilenta,
Tingida de escuridão,
Enrouquecida pelo fumo do tabaco preto.
Vi aranhas, gatos, baratas, moscas
E gafanhotos-do-campo cor de carvão.
Odeio gafanhotos!
As miseráveis ruas invadiram-se…
Contrabandistas bêbedos!
Putas vadias!
Comerciantes corruptos!
Viúvas esmagadas pelo Fado!
Mendigos pedantes!
Ladrões de bibliotecas!
Fugi.
Regressei convicta da minha sorte.
Fiz bem. Aqui estou melhor.
O meu Céu não é de chumbo…

BLAUHAI*

Sempre ouvi dizer que achar botões dá sorte. Mas um dia destes ouvi murmurar que, de acordo com uma velha lenda, as pessoas devem fazer pulseiras com botões que lhes foram oferecidos. E parece que, enquanto a pulseira for usada, a amizade não pode ser quebrada…
Com os botões que nos são oferecidos?
Estranho. Nunca pensei que alguém se lembrasse de oferecer botões! A mim sempre me ofereceram livros, perfumes, roupa, chocolates… e essas coisas. Botões: nunca!


Caíram do céu
Botões de 1000 cores;
Seriam chuviscos perdidos de amores?

Vieram aranhas,
Trouxeram os fios,
Com latas de tinta, a vida tingiu-os.

Correntes de rios,
Vindas do sem-fim,
Repletas de cor, esperam por mim.

BLAUHAI*

Quanto mal pode fazer um só vocábulo aparentemente insignificante e oito miseráveis letras? Sim, 3 miseráveis consoantes, 5 miseráveis vogais e 1 estúpido dum acento chinês?!

 

VOU RISCAR-TE AGORA!
QUERO RISCAR-TE!
SIM, RISCAR-TE-EI!


Não quero que estas linhas sejam lidas por ninguém. Não quero que alguém perceba que te adorei dias sem fim, que fui uma estúpida ingénua, uma idiota demorada e uma parvalhona imbecil por acreditar em ti… e no teu amor-sem-fim por mim.

Odeio-te, A-Z. Abomino-te α-Ω.
Magoaste-me tanto.
Pisaste-me a Alma.
Amarrotaste-me o Coração.
Esmagaste-me o Ser.

Quero rasgar todas as páginas da minha vida contigo.

Quero riscar todos os dias, todas as tardes, todas as noites, todas as auroras e madrugadas que passámos juntos.

Quero amachucar os recados e os post-it ridículos que me deixaste.

Quero apagar as viagens que fizémos juntos até ao ifinito, todos os objectivos que tracei contigo, a tua voz cálida e picante, todos os projectos que tínhamos delineado, os teus beijos salivados, a tua imagem inocente e pueril, os teus olhares doces, o calor do teu abraço, o teu alento, o teu desejo, as tuas vontades súbitas de entrega total, o desejo ardente do teu corpo, as tuas carícias intermináveis, o teu Amor…

Deixaria tudo por ti. Burra!
Faria tudo outra vez. Tola!
Amar-te-ia até ao fim. Ingénua!
Mas agora quero ir. Mas agora não quero que voltes.
Por que te ausentaste?
Por que me declaraste intenções vãs?
Por que me aleijaste* a alma?
Porque é que teve que ser assim?
E… porque é que é tão difícil RISCAR-TE da minha vida?

Seria bom se fosse tudo tão fácil como riscar estas linhas. Se não estivesse a teclá-las, não seriam linhas mas borrões provocados pelas gotas que me escorrem pela face. Que ironia, esta. Se a vida fosse escrita a lápis, tudo se resumiria a apagá-la com uma borracha. Mas a vida agora é teclada, é escrita num blog… e os posts não se apagam.

Como não posso apagar, risco.
Risco, mas não te risco a ti.
Que nervos! Que raiva! Odeio-te!

E, apesar de tentar riscar-te da minha existência, continuas aqui, por detrás de riscos continuados, que são apenas remendos patchwork da minha memória.

Claro que a vida não acaba aqui. Ela continua. E eu também; mais forte.

Não mereces nem a minha dor, nem a minha preocupação, nem o seu sofrimento.

Odeio-te. Amo-te. Odeio-te. Adoro-te. Quero-te. Desejo-te.
Não. Odeio-te.

*aleijaste-me?

BLAUHAI*
Ups!
Não.
Corrijo;
BLAUHAI
*

Um dia dia destes puseram-me uma porra duma folha A4 branca (daquelas de 80g/m²) à frente e perguntaram-me com descaramento: O que é que vês nesta folha branca?! Eu, cuja singela existência se revela muitas vezes impertinente, senti de imediato a surgir no meu semblante aquele olhar de 31cm³ e a franzir o sobrolho com aquela expressão entediada que me inunda o Ser em inícios de mês atribulado!
“O que é que vês nesta (porra desta estúpida e insignificante) folha branca?” é pergunta que se faça a uma gaja?
Em escassos centésimos de segundo matutei umas 50 vezes no raio da pergunta. E ainda tive tempo para ripostar por breves instantes, balbuciando umas palavritas menos próprias. Enfim, mas lá me decidi a responder (e sem demora).
Com os olhos pregados na folha deslavada (e bem amachucadita, por sinal), lá comecei a verbalizar umas frases dispersas aqui a ali. Pedi um lápis de carvão. Lápis de carvão? Nem pensar! Isto é um exercício mental, amiga. Rendi-me àquela estranha vertente a que a psicologia se dedica e continuei a olhar para a folha inútil (e amachucada).
O que é que eu vou ver numa folha pálida e vazia de conteúdos gráficos?
De repente, entre ideias internamente ripostadas, comecei a ver uma nuvem a sorrir, uma ovelha cor de espuma a saltitar, um arco-íris em dia de calor intenso, dois kookaburras beijando-se, um céu maravilhosamente azul, uma cegonha cor-de-rosa sentada numa Lua prateada, uma praia com palmeiras, um horizonte colorido de verdes-mar, um velho livro de memórias, um sapo com uma coroa dourada, uma cascata cristalina, um malmequer a ser desfolhado… e no centro, uma igreja.
Uma igreja, perguntou-me?! Mas uma igreja de que tipo, insistiu? Sei lá, uma catedral gótica, disse eu. Gótica?! Mas tu estás apaixonada?!!!

A psicologia moderna tem destas coisas!
Mas o que é que a igreja gótica tem a ver com a paixão?¿?
É melhor parar por aqui, senão entedio-me outra vez.
Ah. É verdade.
Os Kookaburras estavam (bem) empoleirados.
Um no outro, claro!

BLAUHAI*