Um dia dia destes puseram-me uma porra duma folha A4 branca (daquelas de 80g/m²) à frente e perguntaram-me com descaramento: O que é que vês nesta folha branca?! Eu, cuja singela existência se revela muitas vezes impertinente, senti de imediato a surgir no meu semblante aquele olhar de 31cm³ e a franzir o sobrolho com aquela expressão entediada que me inunda o Ser em inícios de mês atribulado!
“O que é que vês nesta (porra desta estúpida e insignificante) folha branca?” é pergunta que se faça a uma gaja?
Em escassos centésimos de segundo matutei umas 50 vezes no raio da pergunta. E ainda tive tempo para ripostar por breves instantes, balbuciando umas palavritas menos próprias. Enfim, mas lá me decidi a responder (e sem demora).
Com os olhos pregados na folha deslavada (e bem amachucadita, por sinal), lá comecei a verbalizar umas frases dispersas aqui a ali. Pedi um lápis de carvão. Lápis de carvão? Nem pensar! Isto é um exercício mental, amiga. Rendi-me àquela estranha vertente a que a psicologia se dedica e continuei a olhar para a folha inútil (e amachucada).
O que é que eu vou ver numa folha pálida e vazia de conteúdos gráficos?
De repente, entre ideias internamente ripostadas, comecei a ver uma nuvem a sorrir, uma ovelha cor de espuma a saltitar, um arco-íris em dia de calor intenso, dois kookaburras beijando-se, um céu maravilhosamente azul, uma cegonha cor-de-rosa sentada numa Lua prateada, uma praia com palmeiras, um horizonte colorido de verdes-mar, um velho livro de memórias, um sapo com uma coroa dourada, uma cascata cristalina, um malmequer a ser desfolhado… e no centro, uma igreja.
Uma igreja, perguntou-me?! Mas uma igreja de que tipo, insistiu? Sei lá, uma catedral gótica, disse eu. Gótica?! Mas tu estás apaixonada?!!!
A psicologia moderna tem destas coisas!
Mas o que é que a igreja gótica tem a ver com a paixão?¿?
É melhor parar por aqui, senão entedio-me outra vez.
Ah. É verdade.
Os Kookaburras estavam (bem) empoleirados.
Um no outro, claro!
BLAUHAI*


